A placa do carro da frente se inverte quando passo por ele E nesse tráfego acelero o que posso. Acho que não ultrapasso e quando o faço, nem noto.
O farol fecha... Outras flores e carros surgem em meu retrovisor.
Retrovisor é passado É de vez em quando... do meu lado Nunca é na frente . É o segundo mais tarde... próximo... seguinte É o que passou e muitas vezes ninguém viu...
Retrovisor nos mostra o que ficou; o que partiu O que agora só ficou no pensamento.
Retrovisor é mesmice em dia de trânsito lento... Retrovisor mostra meus olhos com lembranças mal resolvidas Mostra as ruas que escolhi... calçadas e avenidas...
Deixa explícito que se vou pra frente, Coisas ficam para trás .
A gente só nunca sabe... que coisas são essas.
-O TEATRO MÁGICO-
[Muitas...muitas coisas foram preciso ser deixada pra tras...]
. . Naquela sala...onde havia um tapete sobre o qual pousavas os pés descalços... Na minha sala(onde mais parecia nossa), as paredes beges contrastavam com o marrom do tapete e o verde das almofadas que geometricamente eu tentava arrumar e a mesa de vidro...afinal sempre gostei de (alguma) transparência.
Nessa sala, as frestas de luz iluminavam as sombras do que sentias e as páginas dos livros que folheavas. Na minha sala imaculadamente limpa, os copos não podiam ser pousados em qualquer lugar, as manchas eram inadmissíveis e o pó um visitante desconfortável e indesejado.
Nesse lugar onde vivias, todas as tuas pequenas imperfeições não podiam ser vistas, todas elas moravam debaixo do tapete, o espaço para onde eu varrias para que não ficassem à vista e violassem a absoluta quietude e perfeição do nosso espaço.
Debaixo do conforto superficial do tapete que nunca foi como o tapete da entrada onde toda a gente limpava os pés da sujeira acumulada.
Apenas fingias esquecer-me de uma coisa... a tua dualidade sempre se sentou ao teu lado na sala...e por você eu sempre quis ignorar que todos os tapetes precisam ser sacudidos e se não o fizer, alguém acabará por fazê-lo e tudo o que eu varria para lá, o tornaria tão sujo como o da entrada.
Sei que vivias na minha casa e nunca alguém antes compartilhava tanto o meu espaço comigo.Tinhas as chaves da porta e que tomaste lugar em cada pedaço do meu lar.
Foste tu,que dia a dia foi conhecendo todas as divisões e te tornaste tão familiar como a disposição dos sentimentos e os contrastes gritantes das cores. Da minha parte sempre preferi a geometria das mobílias e os tons quentes da minha intensidade, do teu lado havia a tranquilidade das cores e a contenção.
Pouco a pouco foste encontrando lugar em mim e marcaste presença com as tuas chaves perdidas com displicência e as cinzas dos cigarros abandonados nos cinzeiros. Abrias as minhas janelas de par em par para arejar as divisões da saturação dos cheiros antigos, talvez porque ao abri-las estivesses a abrir também as tuas. Havia encontro e aquele espaço também te pertencia.
Não sei há quanto tempo deixaste de morar em mim como moravas, nem tão pouco sei se o saberás. Há quanto tempo deixei de morar em ti? São respostas que não queremos obter, mais por medo, culpa, orgulho, raiva ou perda. Porque é o medo e a raiva que (ainda) nos aproximam, estranha ligação esta, que tão pouco sobrou do que um dia nos uniu.
As perguntas são reticências e incertezas e as respostas são definitivas, pontos finais e constatações. Já há tanto tempo que não abro as janelas, já há tanto tempo que não encaixoto as coisas e mudo as mobílias de lugar. Mas ainda há tanto por arrumar...e nós vamos adiando enquanto esta espera se arraste e (me) consome e percebo que você na verdade,nunca pertenceu realmente a esta casa.
Fechei a porta com estrondo e joguei fora tuas chaves... E desde então que foste embora,como se fosse vc quem tivesse me abandonado...o espaços que ocupavas, está para alugar...
.
["E se você sentir saudades,por favor não dê na vista..."]
O que há em mim é sobretudo cansaço — Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço. A sutileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto em alguém, Essas coisas todas — Essas e o que falta nelas eternamente —; Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada — Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser...
E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço, Íssimno, íssimo, íssimo, Cansaço...
-Álvaro de Campos-
.
[Cansaço de até perder tempo imaginando o que se
passa no coração das pessoas. Vontade de tomar um uísque num bar em qualquer
. Covarde!E isso tudo não passa de uma grande covardia.
Todo esse medo, toda essa luta vã de esconder-se, enquanto procura o que não existe naquilo que imagina já ter encontrado. É uma grande covardia correr em círculos naquilo que já conhece, no que não há saída, tampouco direção.
É algo covarde apostar em perder algo que já o teve, por julgar conhecer a dor, por acreditar que se supera mais fácil perder o que já foi perdido, acreditar que "fazer o certo" agora seja uma maneira de se apagar cicatrizes incuráveis...que se ameniza uma dor...que se apaga o arrependimento.
É mais covarde ainda escolher a dedo um coração fechado, procurar no pior motivos para não sentir a culpa da incapacidade de acreditar no amor, de imaginar que sofre menos quando se fizer acreditar que foi perdido, e não, que o perdeu.
Uma grande covardia é mentir a si mesmo e acreditar que não mereça algo melhor, que não se é capaz de corresponder a algo verdadeiro.
Pensar que todas as pessoas são covardemente iguais, que tudo se resume a um estúpido ciclo doentio, com as mesmas dores.
É a covardia mais estúpida privar um sentimento pensando em sofrimento, mentido a si mesmo, já sofrendo por não conseguir esconder-se dele, encontrando-se sem coragem de encará-lo.
É uma grande hipocrisia condenar-se a ser sozinho de mãos dadas com a covardia, olhando-se no espelho repetindo "Oi" a uma estranha.
.
["Favor alguém me dê um coração.
Que esse já não bate nem apanha...
Por favor,uma emoção pequena.
Qualquer coisa que se sinta!
Tem tantos sentimentos,deve tera algum que sirva..."]
. . . Você sempre me disse que sua maior mágoa era o fato de eu já ter vivido tanto e nunca poder viver algo comigo pela primeira vez.
Mas eu nunca tinha escrito um texto sobre você. Nem que fosse te xingando, te expondo. Qualquer coisa.
Você dizia que sempre foi aquele que me amou. E eu nunca te escrevi nem uma frase num papelzinho amassado.
Você sempre foi o único amigo que entendeu essa minha vontade de abraçar o mundo quando chegava a madrugada. E o único que sempre entendia também, eu dormir meio chorando nos seus braços (porque é impossível abraçar sequer alguém, o que dirá o mundo.)
Outro dia,vendo as fotos dos meus últimos aniversário,em todos estava vc lá.E na legenda de uma delas,tinha escrito: “Uma presença,um presente...” Ele, no caso, é você. Dei risada e lembrei que em todos esses anos, mesmo eu nunca tendo escrito nenhum texto para você, eu por diversas vezes larguei vários namorados meus, sentados, e dancei com você,passei horas a fio a conversar e rir com vc. Porque você era o meu melhor companheiro de dança, melhor companheiro de tudo e de nada.
Eu não sei porque exatamente você não mereceu um texto meu, quando me deu meu primeiro Cd de Trance. Ou quando me conta aquelas historinhas de crianças para eu dormir feliz. Ou mesmo quando, já de saco cheio de eu ficar mais metade da cidade, você ainda sempre tinha paciência de escutar todas as minhas dores de amor. Ou quando a gente se ligava e passava horas a conversar no telefone coisas que só pra gente fazia sentido.
Também não sei porque eu não escrevi um texto sobre a sua cara emburrada e o olhar atravessado para mim quando eu bebia demais numa festa...e me dizia uma das frases mais linda que eu já ouvi “E mesmo qndo tu não precisar,eu vou está sempre aqui.” Quando eu sai daquela festa chorando,desorientada e te liguei no meio da noite.Vc largou tudo e me pôs em seus braços.Chorei como uma mulher,depois me fez rir feito menina.Ou quando eu adoeci e vc me levou ao hospital,ficou ao meu lado e fez ser um dos sábados a noite mais divertidos que eu já vivi.
Eu devia ter escrito sobre os seus conselhos,quando eu te perguntei se eu deveria ir para aquela cidade,onde fui atrás de um sonho,e vc disse “Tenha calma...não vá agora”...e eu fui! Depois me recebeu de volta com olhos sorrindo,sem nunca me perguntar o que houve...enquanto em meu ser era só dor. Mas você estava ali.
Talvez eu devesse ter escrito um texto para você, quando eu te pedi “me faz companhia para eu dormir” enquanto eu chorava por ter mais uma vez o coração partido. E você fez.
E você me olhava de canto de olho, mesmo quando eu não seguia os seus conselhos. Talvez porque mesmo sabendo que eu não amava você como homem, você continuava querendo apenas me olhar. E eu me nutria disso. Me aproveitava. Sugava seu amor para sobreviver um pouco em meio a falta de amor que eu recebia de todas as outras pessoas que diziam estar comigo.
E juntos vivemos a metamorfose de um sentimento.Ao ponto de chegarmos a acreditar que poderíamos ser um do outro e mais um pouco.E ainda assim...nem sequer algumas palavras a ti.
Depois eu também podia ter escrito sobre aquele dia em que te xinguei até desopilar todos os cantos do meu fígado. Eu fiquei numa tristeza absurda,mas depois entendi que nunca te pedia nada...mas esperava tudo de você. E fiquei feliz.
Hoje eu queria ter vontade de nos xingar quanto pudéssemos ouvir, desde que isso signifique o amor que tínhamos por nós e a gente consiga escutar os ar que saía dos nossos pulmões...e saber que ainda há resquícios de nós dois.
Minhas piadas, meu jeito de falar, até meu jeito de dançar ou de andar. Tudo é você. Minha personalidade era você. Quando a gente voltou de uma certa viagem e eu berrava Strokes no carro,quando a gente coloca o Trance alto no carro.Qndo outra viagem paramos numa estrada linda e ficamos um tempão a observá-la...e sorrimos agradecendo por ta vivendo aquilo. (Nosso Universo paralelo lembra?) Tudo é você. Quando a gente dançava no quarto ou adormecia no tapete. Ou quando eu fico em casa feliz com as minhas coisinhas. Quando vc chegava no meio da noite ,no meio do dia...no meio da tarde.Qndo pulava o meu muro pra me fazer surpresa... Tudo é você. Eu sou mais você do que fui qualquer pessoa que passou pela minha vida. E eu sempre amei infinitamente mais a sua companhia do que qualquer companhia do mundo,e eu sempre te falava isso... E, ainda assim, nunca, nunquinha, eu escrevi sequer uma palavra sobre você. Até hoje. Até aquela manhã. Em que você, pela primeira vez, quase foi embora.Com minha despedida nada ensaida e frases não-feitas,quase foi embora... Deixando apenas uma vontade não concebida de tantas coisas que eu deveria te falar. Foi a primeira vez, em todos esse anos, que eu simplesmente quase fui embora. Como se vc fosse só mais uma coisa da minha vida cheia de coisas que não são tão minhas,e que eu uso para não sentir dor ou saudade.
Foi a primeira vez que eu parei de te ver e te enxerguei. Ofuscando o teu brilho em mim refletido na minha cara borrada. Foi a primeira vez que eu dei as costas a você. A primeira de tantas...de tantas que vieram...
(e tantas que virão)
.
["Tenho uma vontade besta de voltar, às vezes. Mas é uma vontade semelhante à de não ter crescido."]
"Aí estava o mar, a mais ininteligível das existências não-humanas. E ali estava a mulher, de pé, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fizera um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornara-se o mais ininteligível dos seres onde circulava sangue.
Ela e o mar.
Só poderia haver um encontro de seus mistérios, se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões..."
. . "Tenho medo de gente e de solidão Tenho medo da vida e medo de morrer Tenho medo de ficar e medo de escapulir Medo que dá medo do medo que dá
Tenho medo de acender e medo de apagar Tenho medo de esperar e medo de partir Tenho medo de correr e medo de cair Medo que dá medo do medo que dá
O medo é uma linha que separa o mundo O medo é uma casa aonde ninguém vai O medo é como um laço que se aperta em nós O medo é uma força que não me deixa andar
Tenho medo de parar e medo de avançar Tenho medo de amarrar e medo de quebrar Tenho medo de exigir e medo de deixar Medo que dá medo do medo que dá
O medo é uma sombra que o temor não desvia O medo é uma armadilha que pegou o amor O medo é uma chave, que apagou a vida O medo é uma brecha que fez crescer a dor
Medo de olhar no fundo Medo de dobrar a esquina Medo de ficar no escuro De passar em branco, de cruzar a linha Medo de se achar sozinho De perder a rédea, a pose e o prumo Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo
Medo estampado na cara ou escondido no porão O medo circulando nas veias Ou em rota de colisão O medo é do Deus ou do demo É ordem ou é confusão O medo é medonho, o medo domina O medo é a medida da indecisão
Medo de fechar a cara Medo de encarar Medo de calar a boca Medo de escutar Medo de passar a perna Medo de cair Medo de fazer de conta Medo de dormir Medo de se arrepender Medo de deixar por fazer Medo de se amargurar pelo que não se fez Medo de perder a vez
Medo de fugir da raia na hora H Medo de morrer na praia depois de beber o mar Medo... que dá medo do medo que dá Medo... que dá medo do medo que dá..."
.
[Costumava a dividir o tempo em três partes: Passado,presente e futuro...até conhecer a voz doce e o sorriso da Sofia.
Agora vejo que essa divisão tornou-se efêmera. O tempo é realmente passado e futuro;já que o presente não faz parte do tempo! O presente faz parte da eternidade.
Nunca passa aquilo que está sendo; estará sempre aqui...e agora...]
Não satisfeita em ser totalmente arranhada por dentro, como um muro velho cheio de rêbocos e emendos,ainda assim, mantinha uma estranha mania de se pintar por fora: Desenhos imperecíveis na parte externa do corpo que falavam de uma época.Cada qual com o seu significado...cores e razões.
E quantos aos arranhões que,uma vez estando internamente, ficavam protegidos de agentes externos, que,possivelmente iriam causar mais dor e agonia, agora apareciam a olho nu.
Vez ou outra, ela insiste em se arranhar. Ela mesma. Numa metáfora simples:esperava suas unhas estarem grandes o suficiente para causar o estrago previamente super calculado, e o fazia. O fazia como quem sabe o que está fazendo, como quem se machuca sabendo que o faz e, pior, porque o faz. Como se ela fosse auto-destrutiva. Era a única resposta.
Como se primeiro fosse arranhar um braço.Depois o outro. O rosto. Não, não, o rosto não! Agora não. As lágrimas vão fazer arder mais ainda. (Precisa sofrer mais para poder aguentar essa ardência.)
Agora tem que ser as pernas. Aí, sim, vai para o rosto. Porque aí, não vai restar mais nada: tudo já vai estar arranhado, sem chance de sobrar algum lugar limpo, sem dor, sem marcas.
E, só assim, eu vou saber que está tudo acabado. Porque, quando já não se sabe para onde ir ou se deve ir ou ficar, ou que se fazer, é chegado o fim. Não é assim que te ensinam? Pelo menos foi assim que me ensinaram. E foi a única coisa que aprendi. Simples assim: como dois mais dois são quatro.
Ela repetia em tom ameaçador, enquanto fazia o que tinha que ser feito: - Não se perca de si mesma.
E assim, ia seguindo. Era só o tempo das feridas criarem casquinhas, aí ela vinha e fazia tudo denovo.
Ciclo vicioso.
Passou muito tempo da vida fazendo e refazendo isso, até que um dia, parou de se arranhar, mas continuava repetindo a mesma frase de sempre: - Não se perca de si mesma.
(Tinha se perdido dela mesma; pelo menos por enquanto. )
.
[" Há algo que jamais se esclareceu :
onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo o leão
"Às vezes me lembro dele, sem rancor, sem saudade, sem tristeza. Sem nenhum sentimento especial a não ser a certeza de que, afinal, o tempo passou.(?)
Nunca mais o vi, depois que fui embora daquela cidade. Nunca mais te escrevi... Não havia mesmo o que dizer, ou havia?Sim,sim...eu sei que havia. Ah, como não sei responder as minhas próprias perguntas! É possível que, no fundo, sempre restem algumas coisas para serem ditas. É possível também que o afastamento total só aconteça quando não mais restam essas coisas e a gente continua a buscar, a investigar — e principalmente a fingir. Fingir que encontra. Acho que, se tornasse a vê-lo, custaria a reconhecê-lo."
C.F.A.
[E mais uma vez dormiu se perguntando:
E se eu te conhecesse agora,será que eu te amaria?]
“Aquela antiga boa sensação de... estar onde ninguém pode alcançá-lo...”
.
Morar sozinho é observar a fruteira vazia. É enganar a si mesmo na hora de acordar (só mais 15 minutos, só mais meia hora, só mais uma horinha). É dormir e acreditar que tem mais gente em casa. É receber uma ligação da síndica,por que mais uma vez esqueceu de pôr o carro pra dentro. Morar sozinho é duro. Estranha arte, a de morar sozinho. Arte dos adiamentos eternos e das conversas com a geladeira (as vezes também vazia).
É, no meio do dia, sentir vontade de telefonar para si mesmo. Morar sozinho é foda, mas é legal. Morar sozinho é esquecer uma panela de Miojo no fogão. É saber o endereço dos fantasmas.Abrir uma lata de atum às duas e meia da madrugada.
Assim é morar sozinho: acordar, lavar o rosto, escovar os dentes, tomar dois telynois, sair para o mundo,estar sozinho no mundo e esperar encontrar a primeira pessoa que vc irá ver e dar Bom dia. Quando em casa, fingir que não tem ninguém. A campainha quebrada há mais de nove meses. O sono diante da TV ligada, um copo d´água pela metade, um cordão de sapato feito cobra no tapete. Uma cama em desalinho. A TV ligada (e o filme continua dentro da cabeça).
Morar sozinho é ler o jornal, de manhã, com profunda desatenção. É voltar no meio da noite e não encontrar ninguém em casa. É pedir uma pizza inexistente e uma Coca “normal” de 600.É saber decorado os telefones dos deliverys. Morar sozinho é sentir falta do amigo imaginário da infância (que hoje deve estar casado e com três filhos, futebol aos sábados, restaurante aos domingos). É viver, todo dia, as últimas cenas de 2009.É deixar a casa dos pais onde vc tinha tudo nas mãos,para aprender a ser uma criança com contas de gente grande à pagar.E ainda assim, correr pros braços deles quando algo os aflinge e ser recebida com braços abertos,colos acolhedores e sorrisos largos.
Morar sozinho é perder o sono por coisas idiotas.É ter medo quando falta luz e superar sozinha o medo de trovões.É ver a semana passar e esperar a Sexta Sem-Lei do Amicis.Uma solidão cercada de Paz por todos os lados. É esperar o fim de semana, o vento leve e o silêncio respeitoso das manhãs de domingo. É atender a um telefone do pai às 7 e meia da matina.
Morar sozinho é dar nome aos objetos, nome e sobrenome. É ter problemas com as crianças que insistem em fazer barulho na janela. É ter uma coleção de miniaturas e uma infinidade de livros não-lidos. É tomar banho ouvindo Bach. Morar sozinho é exercitar a loucura de nascer todos os dias no tempo. É caminhar entre os meses como quem chuta pedras no chão. É legal, mas é foda.
E a campainha – a campainha continua quebrada.
.
[Não é nada não mãezinha.
É que as vezes me dá uma saudade de tudo...da senhora...do papai
e do tempo em que viver era apenas um dia após o outro.]
"Estamos no mesmo barco, sob a mesma Lua. No mar, em marte, em qualquer parte... Estaremos sempre sob a mesma Lua..."
.
A menina espera...mesmo quando o relógio teima em passar devagar. Ela sabe que a cidade vai se colorir aos poucos. E seu coração pode bater levemente. Porque seus pés pisarão as mesmas calçadas,seus cabelos serão balançados pelo mesmo vento. E a dor da ausência se fará ausente enfim.
A menina espera, porque tem saudade sem fim. Do seu cheiro, sua voz, seus braços, beijos e presença. E das borboletas que fazem os medos irem embora aos poucos.
A menina olha o relógio. Seus ponteiros nunca pareceram andar tão devagar. E cada movimentar nunca lhe pareceu tão macio. É o tempo que passa. E faz ficar cada vez mais perto dela o dia. O dia de fechar os olhos e perceber que a espera findou-se. E que enfim, o menino não existirá mais somente dentro dela. Mas estará ao seu lado... Sem meias palavras. Nem saudade. Nem distância. Nem nada. Só o sentimento e a vontade.
E o menino a beijar sua flor.
.
[Cada pétala daquelas rosas vermelhas,parecem ter vindo com sua presença...
o seu cheiro...o seu toque...seu cuidado...sua atenção.
Como dizia Einsten,Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana!
.
- Por que você ta com essa cara,minha menina? - Porque querem me obrigar a dizer A. - E por que não queres dizer A? - Porque assim que eu tiver dito A, vão me obrigar a dizer B…
.
"Aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes
para despertar a suavidade alheia, e mesmo assim insisto.”
C.F.A
[Horário comercial.
Vampiros.
Pessoas que tentam sugar minhas boas energias.
Meu sangue é doce...mas meus anticorpos habitam em meus poros...]
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegida, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido... Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa.
Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos...
(...)
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração.
Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível"
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu o olhava.
(...)
A vida seguirá no seu tempo, na distância, na poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, quando cansada tenho vontade de deleitar em seus braços.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor.
Curvo a cabeça, agradecida. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir medo.
C.F.A.
[Faz de conta que ela não estava chorando por dentro. Pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado.
...É só esta vontade quase simples de estender os braços para tocar você.]
Olhando pra foto,me recordei rapidamente de todas as pessoas e coisas que perdi por ainda não estar preparada para elas, ou por ainda ter muita curiosidade do mundo e dificuldade em ser permanente...
[E que me bateu um arrependimento de
ter sido sensata e ter voltado para essa cidade...]
"Sinto que vale a pena esperar por você e sentir meu peito acordar pra te ver Sorrindo... chegando... invadindo... Chamando meio sem querer, querendo... Só eu sei o quanto estou feliz.
Foi por um triz que o destino me deu Seu olho paralisado no meu É só ficar do seu lado Que o mundo melhora ...
(...) Meu caminho em cada linha da sua mão Pra você entreguei esse meu coração Meu carinho só tinha de ser pra você Valeu a pena esperar... Por você."
David Duarte
.
[No fim destes dias encontrar você que me sorri,
que me abre os braços, que me abençoa
e passa a mão na minha cara marcada,
na minha cabeça confusa,
que me olha nos olhos e me permite mergulhar
no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino,
você me embala dentro dos seus braços
e você me beija
e você me aperta
e você me aquieta repetindo que vai ficar tudo bem,
Olhava as ladeiras por inteira, a cidade ainda em cores,mas agora em silêncio.Havia um arrepio a correr-me por dentro.Ainda era verão, mas naquele dia resolveu nascer menos brilhante.
O meu coração veio a flutuar desde lá de baixo, quando me deixei ancorar na margem daquele rio que pecorre toda a cidade. Atravessou o Cais, deu uma volta pelo Quatro Cantos, para, finalmente, aterrar em você.
Sinto-me anestesiada e em frenezi.Como que em solidariedade, até me parece confortar.
Consome-me já uma saudade melancólica da sua imagem que existiu à minha volta, como a falta que se sente de alguém que se sabe que se pode perder na distancia, mesmo ainda não o tendo, de fato, perdido e ainda o tendo nos braços.
Acordei desta sensação solitária com a mão dele a apertar a minha. Já quase o esquecia ao meu lado, não fosse um calor protetor e invisível - aos olhos - ter-me sempre aconchegado, desde o início da caminhada.
Olhei para o lado e o vi sempre ali ao alcance de minhas mãos e preenchendo o vazio com coisas novas e concretas.De repente, no caminho de volta,ri como se nada de demasiado grave houvesse no mundo e nunca, ainda, lhe tivessem feito mal, nem receasse poderem vir a calar-lhe esse riso.
Eu fico a olhá-lo e admira-lo .E sinto-me preenchida por tudo que vem dele. E fomos, então, duas almas encontradas a pairar no meio da praça,na beira do rio,com encontro marcado entre milhões de pessoas,cobertos de vontades e descobertas... que riam alheias aos olhares e aos cochichos.
Quando o abracei para ir embora, a minha angústia pareciam lágrimas de um sentimento gigante a cair-me dos olhos. E é assim que deixamos acalmar o riso, para descansarmos no ombro um do outro.
Não sei quanto tempo passou, nem se foi sonho ou fantasia, mas quando desfizemos esse abraço, fui embora sem olhar pra tras e só via um rosto que me acalma e me fortalece. Mas, ao concentrar-me melhor, constato que basta eu fechar meus olhos que ele continuou a morar no fundo deles.
Quando soltei a sua mão, não sorri-me o último suspiro prolongado deste nossos dias.Mas eu sei que, aqui, a distância nunca será nada para o que une as almas.
Olhei a cidade inteira, agora com um sorriso mais descontraído, porque, lembro-me, a minha casa é onde está o meu coração.Pensava coisas bobas... sentada na janela do ônibus, encostando a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e pensava demais em você...
Sei que era necessário recomeçar a caminhar, não sei bem para que direção,mas apenas levando uma das minhas duas moradas ao meu lado, para sentir você segurando a minha mão e dominando meus pensamentos...
(...)
Qualquer coisa que chamam de impossível...fez-me acreditar. .
["Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o mês,
não são muitos, pensarás com alívio.
Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis
e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho."
Te escrevo agora como quem cospe um chiclete já sem gosto. Palavras que saem duras e sem qualquer possibilidade de fazer bolas coloridas, daquelas que quando estouram grudam nos lábios e mesmo com todo esforço sempre fica um pouco.
Nada resta em meus lábios, só meu maxilar que dói ao tentar mastigar uma última vez as palavras que te cuspo. Tentativa inútil de encontrar no mais escondido da minha boca algo que lembre o doce de antes.
Inútilmente e indiferente, cuspo na sua cara tão diferente daquela cara que fechava os olhos quando eu lia coisas macias e coloridas.
E inutilmente calo, porque mesmo que fossem bolas coloridas você não as veria. Não mais.
.
[Agora há uma ausência que dói bem menos que uma presença cortante.]
Ela tinha escrito muitas linhas para dizer que descobriu o quanto ele era hipócrita,incrédulo e banal...Mas lembrou-se do quanto que ele é hipócrita,incrédulo e banal e decretou o fim das reticências.
.
Ela adormece. Passarão dias, meses e anos. Sararão as feridas. Passará o gosto de fel na boca. Cessarão as incertezas.
E assim
Curam-se os choros. Curam-se os gritos. Curam-se as indiginações.
Morre o se importar. Morre o se preocupar.
Libertam-se o coração, a alma e a mente. Ela, enfim, é dela mesma. Está livre.
Ponto final
.
. .
"I'm screaming at the top of my voice, Give me reason, but don't give me choice."
[E todas as pessoas que eu já me esqueci, parecem agora ter a sua cara.]
Queria mostrar alguma coisa, qualquer coisa, uma coisa que demonstrasse que eu queria alguma resposta, mesmo não sabendo o que perguntar...
Depois de algum tempo, de um tempo em que só ele falou, comecei a compreender algumas coisas, e então não senti mais vontade nenhuma de perguntar qualquer coisa que fosse...
Eu só queria conhecer mais sobre aquela pessoa que me parece tão gritante...
E é isso que a gente continuou fazendo enquanto caminhávamos, e naquele abraço de despedida no elevador,eu senti que não queria mais perguntar nada, e muito menos entender, só queria estar ali, se possível, com alguma frequência...
E que bom que eu quis conhecer um pouco mais...
As coisas e as pessoas só são em totalidade quando não existe perguntas... (ou pelo menos quando essas perguntas não são feitas).
.
* *
"Se eu peco é na vontade de ter um amor de verdade. Pois é que assim em ti, eu me atirei e fui te encontrar pra ver que eu me enganei...
Depois de ter vivido o óbvio utópico, te beijar, e de ter brincado sobre a sinceridade e dizer quase tudo quanto fosse natural... Eu fui pra aí te ver, te dizer:
Deixa ser, como será! Quando a gente se encontrar No pé, o céu de um parque a nos testemunhar... Deixa ser como será! Eu vou sem me preocupar. E crer pra ver o quanto eu posso adivinhar...
De perto eu não quis ver que toda a anunciação era vã. Fui saber tão longe, mesmo você viu antes de mim...
(...)
Deixa ser como será! Tudo posto em seu lugar Então tentar prever serviu pra eu me enganar.
Deixa ser, como será! Eu já posto em meu lugar Num continente ao revés..."
[Olhou pela centésima vez o celular.
Mas lembrou que é preciso está destraida para ele que ele toque...]